domingo, 21 de agosto de 2016

Biografia de Maria Helena Vieira da Silva

Vieira da Silva [ca.1940]
Uma das mais importantes pintoras europeias 
da segunda metade do século XX

Nasceu em Lisboa em 13 de Junho de 1908;
morreu em Paris em 6 de Março de 1992.

Filha do embaixador Marcos Vieira da Silva, ficou órfã de pai aos três anos, tendo sido educada pela mãe em casa do avô materno, director do jornal O Século.

Tendo mostrado interesse, desde muito pequena, pela pintura e pela música começou a estudar pintura, a partir de 1919, com Emília Santos Braga e  Armando Lucena. Em 1924, frequenta as aulas de Anatomia Artística da Escola de Belas Artes de Lisboa.

Em 1928 vai viver para Paris, acompanhada pela Mãe, indo visitar a Itália. No regresso começa a frequentar as aulas de escultura de Bourdelle, na Academia La Grande Chaumière. Mas abandona definitivamente a escultura, depois de frequentar as aulas de Despiau.

Começa então a estudar pintura com Dufresne, Waroquier e Friez, participando numa exposição no Salon de Paris. Conhece o pintor húngaro Arpad Szenes, com quem casa em 1930, e com quem visitará a Hungria e a Transilvânia.

Em 1935 António Pedro organiza a primeira exposição da pintora em Portugal, e que a faz estar em Portugal por um breve período, até Outubro de 1936, após o qual voltará para Paris, onde participará activamente  na associação «Amis du Monde», criada por vários artistas parisienses devido ao desenvolvimento da extrema direita na Europa.

Regressará em 1939, devido à guerra, já que para o seu marido, judeu húngaro, a proximidade dos nazis o incomoda, naturalmente. Ficará em Portugal por pouco tempo, pois o governo de Salazar não lhe restitui a cidadania portuguesa, mesmo tendo casado pela igreja. Não deixa de participar num concurso de montras, realizado no âmbito da Exposição do Mundo Português, que também lhe encomendou um quadro, mas cuja encomenda será retirada.

O casal de pintores decide-se a ir para o Brasil, até porque as notícias sobre uma possível invasão de Portugal pelo exército alemão não são de molde a os sossegar.

Em Brasil serão recebidos de braços abertos, recebendo passaportes diplomáticos, que substituem os de apátridas emitidos pela Sociedade das Nações, tendo mesmo recebido uma proposta de naturalização do governo.

Residirão no Rio de Janeiro até 1947, pintando, expondo e ensinando, regressando Vieira da Silva primeiro que o marido, retido pelos seus compromissos académicos.

É a época em que Vieira da Silva começa a ser reconhecida. O estado francês compra-lhe La Partie d'échecs, um dos seus quadros mais famosos. Vende obras suas para vários museus, realiza tapeçarias e vitrais, trabalha em gravura, faz ilustrações para livros, cenários para peças de teatro. 

Expõe em todo o mundo e ganha o Grande Prémio da Bienal de São Paulo de 1962, e no ano seguinte o Grande Prémio Nacional das Artes, em Paris,

Em 1956, foi-lhe dada a naturalidade francesa.


Fontes:
José Augusto França
A Arte em Portugal no Século XX,
Lisboa, Bertrand, 1974

domingo, 14 de agosto de 2016

Biografia de Francisco Vieira (Vieira Portuense)

n.      13 de maio de 1765.
f.       2 de maio de 1805.

Pintor histórico e de paisagem, lente de desenho na Academia do Porto. Era cognominado Vieira Portuense, por ter nascido nessa cidade, e para se diferençar doutro seu afamado contemporâneo, conhecido pelo nome de Vieira Lusitano, por ter nascido em Lisboa. 

Nasceu portanto, no Porto a 13 de maio de 1765, faleceu na ilha da Madeira a 2 de maio de 1805. Era filho de Domingos Francisco Vieira e de Maria Joaquina.

Seu pai reunia à profissão da arte da pintura, em que dizem não era dos de menos conta, segundo a frase tradicional. Começando desde criança a dar mostras da grande vocação para o desenho e para a pintura, o pai logo que o viu instruído nas primeiras letras e tendo-o provavelmente iniciado nos rudimentos da arte, entregou-o à direcção de João Grama, celebre pintor, que se supõe de origem alemã, mas nascido em Portugal. Este artista foi quem primeiro guiou o jovem Vieira no estudo da pintura. Mais tarde, achando-se no Porto com outro notável pintor que primava no género das paisagens, João Pilenan ou Pillement, de nação francesa, recebeu também algumas lições o moço Vieira. Este, porém, não se contentando com a instrução já adquirida e desejando aprofundá-la, resolveu em vez da frequentar a aula publica de desenho, que por essa tempo existia no Porto, vir para Lisboa em 1784 matricular-se na outra aula da mesma espécie, que pouco antes fora estabelecida pala rainha D. Maria I, e da que era director e professor Joaquim Manuel da Rocha. Esta escola de desenho de figura e história funcionava com outra de arquitectura civil, num pavimento baixo do convento dos Caetanos, onde está há muitos anos instalado o Conservatório. Provavelmente a ideia do moço estudante era obter lugar entre os alunos que por concessão do governo e como pensionistas do Estado deviam partir para Roma, mas ou porque lhe faltassem padrinhos ou porque já estivesse preenchida o numero dos escolhidos, Vieira não realizou como desejava aquele seu projecto. O que não pôde alcançar em Lisboa, conseguiu-o porém, no Porto, e a junta da direcção da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, tomando-o sob a sua protecção, mandou-lhe abonar, do seu cofre, a pensão anual de 300$000 reis para lhe ser paga durante o tempo que precisasse demorar-se em Roma até à conclusão dos seus estudos.

Em 1789 partiu para a Itália, e ao chegar àquela cidade, tratou de escolher mestre capaz de o guiar na carreira a que se destinava, e preferindo Domingos Corvi, desenhador de grande correcção mas de feio colorido, de cujas lições tirou grande proveito, e logo em 1791 obteve na academia romana um primeiro prémio em roupas. Para aumentar mais os seus conhecimentos artísticos, percorreu as principais cidades da Itália, visitando os seus mais notáveis edifícios e galerias, copiando para exercício as obras que mais entusiasmo lhe causavam, e deste modo formou uma grande quantidade de livros que trouxe consigo quando recolheu a Portugal, e que eram evidentes provas do seu estudo e da sua aplicação. Tinha ele adoptado de preferência, por mais conforme ao seu gosto, a maneira e estilo mimoso e delicado de Albano e de Guido Reni, mas querendo estudar também o colorido de Corregio, dirigiu-se a Parma para copiar o magnifico quadro de S. Jerónimo que existe na galeria publica da referida cidade, e que é considerado uma das melhores produções do exímio chefe da escola lombarda. A cópia feita por Vieira é qualificada de excelente, mereceu os melhores elogios de Taborda e do conde de Raczynski. Depois de ter estado em casa do visconde de Balsemão, passou para a galeria dos duques de Palmela, de que faz parte há muitos anos. Durante a sua permanência em Parma, recebeu dos membros da academia grandes provas de consideração pelo seu talento. Foi ali recebido pelas famílias da alta aristocracia, chegando a dar lições de desenho à filha do grão-duque, para quem naturalmente o jovem pintor português não foi indiferente, e tanto mais que chegou a retratá-la, e tão perfeito ficou o retrato, que lhe deu fama entre a primeira sociedade de Parma. Fez mais retratos, pelos quais auferiu bons proventos. Voltando a Roma em 1791, demorou-se ali três anos ocupado sempre no estudo dos grandes mestres. 

Em 1797 saiu de Roma, e na companhia de Bartolomeu António Calixto, pensionista na Casa Pia, que também ali fora aperfeiçoar-se, percorreram juntos parte da Alemanha, até que Calixto veio para Lisboa, e Vieira ficou em Dresden, fazendo estudos na notável galeria de pintura daquela cidade, da qual copiou os objectos que mais lhe prenderam a atenção. Passou a Hamburgo e depois a Londres, onde se demorou até ao ano de 1801. Travou conhecimento nesta grande cidade com o insigne gravador Bartholozzi, tomando dele algumas lições de gravura; essas relações tornaram-se de íntima amizade, casando mais tarde com uma viúva italiana, moça e rica, que dizem pertencer à família de Bartholozzi. Fez o retrato deste artista, e começou então a gravar a água-forte um grande trabalho, que por embaraços posteriores não chegou a concluir. Em Londres pintou o Viriato, quadro de notável execução, que ofereceu ao príncipe regente D. João, mais tarde rei D. João VI, e foi colocado na galeria do palácio da Ajuda. Desse quadro abriu Bartholozzi uma bela estampa, assim como outras de diversas composições do artista português. Para obsequiar o ministro de Portugal naquela corte, D. João de Almeida MeIo e Castro, depois conde das Galveias, a quem já conhecera em Roma, e lhe devera muitos favores, compôs também um primoroso quadro Nossa Senhora da Piedade ou do Descimento da Cruz, o qual era destinado à capela da embaixada portuguesa em Londres, mas depois foi colocado no oratório do paço das Necessidades. Ou nos últimos tempos da sua estada em Londres ou logo que regressou à pátria, foi Francisco Vieira, por proposta da Companhia das Vinhas do Alto Douro, provido no lugar de lente na aula de desenho no Porto, vago por ter sido dispensado desse exercício o professor António Fernandes Jácome. tendo a nomeação a data de 20 de setembro de 1800, mas parece, que se chegou a tomar posse da cadeira, pouco tempo se demorou na sua regência, porque vem para Lisboa no princípio de 1801.

Nessa época D. Rodrigo de Sonsa Coutinho, depois conde de Linhares, sendo transferido da pasta da marinha para a da fazenda e nomeado inspector da regia oficina tipográfica, ampliou este estabelecimento, que recebeu então o nome de Imprensa Regia, e por decreto de 7 de dezembro do mesmo ano e pensou em fazer nela uma edição magnifica e luxuosa dos Lusíadas, ilustrada com estampas representativas dos passes mais notáveis do poema. Esse pensamento não chegou a realizar-se por circunstâncias imprevistas; entretanto, Francisco Vieira foi encarregado de fazer as composições, motivo porque veio a Lisboa onde se encontrou com Bartholozzi, que devia de executar as gravuras. Francisco Vieira chegou a fazer onze quadros ou esboços a óleo, de passes dos Lusíadas, que não chegaram a ser gravados, mas que foram adquiridos pelo duque de Palmela, passando a fazer parte da soberba galeria de pintura desta nobre casa. Estando o insigne artista em Lisboa em 1802, na ocasião em que tudo se preparava para solenizar com grandes festas a paz geral de Amiens, que fora assinada em 27 de março daquele ano, o senado da câmara lhe encomendou um quadro alegórico para a sumptuosa festividade que devia realizar-se na igreja de S. Domingos. Nesse quadro que Vieira executou com grande rapidez e que foi muito aplaudido, estava no centro a monarquia lusitana representada na figura duma gentil matrona com atributos adequados, tendo pendente sobre o peito o retrato do príncipe regente e servindo-lhe de cortejo outras figuras que representavam as virtudes e as artes igualmente caracterizados. Os ministros D. João de Almeida e visconde de Anadia, apreciando igualmente o mérito de Vieira, falaram a seu respeite ao príncipe regente, que a 28 de junho de 1802 assinou um decreto nomeando o artista primeiro pintor da real câmara com a pensão anual de 2.000$000 reis, permitindo-se lhe a acumulação deste com o emprego de lente da aula do Porto, e sendo-lhe cometida a obrigação de dirigir e executar juntamente com o seu colega Domingos António de Sequeira, a quem ficava em tudo e para tudo equiparado, as obras de pintura que se haviam de fazer no paço da Ajuda. Para se mostrar digno do alto conceito em que era tido e das mercês que lhe conferiam, compôs e em breve concluiu para a galeria real dois formosos quadros que por si sós bastariam para dar ao autor a reputação de abalizado pintor, e que representam, um o Desembarque de Vasco da Gama na índia, e outro D. Inês de Castro ajoelhada com os filhos perante o rei D. Afonso. Estes quadros foram depois levados com outras pinturas para e Rio de Janeiro, e dizem que ultimamente existiam numa sala do palácio de S. Cristóvão no chamado torreão de prata. Pelo mesmo tempo pintou ainda para o conde de Anadia um magnífico quadro, D. Filipa de Vilhena, que juntamente com outras produções de Vieira se admiraram naquela ilustre casa.

Demorando-se em Lisboa para atender a estes e outros trabalhos, não podia exercer o magistério no Porto, e por isso a regência da cadeira foi dada a seu pai Domingos Vieira, que desempenhou essas funções desde 1 de novembro de 1802 até 30 de junho de 1803, em que se reformaram os estudos na cidade do Porto, ceando-se a Academia de Marinha e Comercio e incorporando-se nela a antiga aula de desenho, que passou a denominar-se Academia de Desenho e Pintura. A aula foi solenemente inaugurada por Vieira, em cujo acto pronunciou o seguinte discurso, que em 1803 se publicou em Lisboa: Discurso feito na abertura da Academia de desenho e pintura na cidade do Porto, por Francisco Vieira Júnior, lente da mesma academia. No resto desse ano e por todo o seguinte de 1804, foi, segundo parece, efectivo na regência da cadeira, dividindo porém o tempo entre os cuidados do ensino e a execução das obras de arte, a que por obrigação do serviço ou por encomendas particulares tinha de satisfazer, e ocupava-se na composição dum quadro em que representava Duarte Pacheco, Achilles Lusitano, defendendo contra o Comorim o Passo de Cambaldo destinado a ornar a casa das Descobertas no palácio de Mafra, quando foi acometido da grave enfermidade, que em breve o prostrou no tumulo. Esgotados todos os recursos da ciência para debelar aquele mal, os médicos lhe aconselharam o clima da Madeira, e obtendo para isso a necessária licença por aviso do 1º de abril de 1805, empreendeu a viagem, mas em lugar das melhoras que esperava, piorou repentinamente, vindo a falecer pouco tempo depois.

Além dos quadros já citados, mencionaremos os seguintes: S. Sebastião, que se conservava na galeria do marquês de Borba; uma Saloia, de capa e lenço na cabeça, que pertencia à casa dos condes de Anadia; o esboceto a óleo do quadro Viriato que pertenceu a Silva Oeirense, e O Amor, que estava na casa dos condes de Anadia, e que Bartholozzi reproduziu pela gravura, e mais duas paisagens que pertenceram a António Ribeiro Neves e Joaquim Pedro Celestino Soares. Na capela da ordem terceira de S. Francisco do Porto há quatro quadros representando: Santa Margarida; Nossa Senhora da Conceição, Santa Isabel e S. Luís, rei de França. No museu do Porto também de Vieira um Cristo crucificado, um S. João, a Adoração do Santíssimo, e duas belas paisagens, das quais uma representa Uma mulher com um menino, que parece defender do ataque dalguns malfeitores. 

Francisco Vieira falava com facilidade as principais línguas da Europa, e conhecia perfeitamente a historia das belas artes. Em 1906 comemorou-se no Porto o centenário de Francisco Vieira, fazendo-se uma exposição das suas obras no salão nobre do teatro de S. João, a qual se inaugurou no dia 17 de junho. Foi a Sociedade das Belas Artes que tomou a iniciativa desta comemoração, e conseguiu reunir para o seu intento uma boa porção de quadros, desenhos, esboços e gravuras de Vieira Portuense. Nesta exposição figuraram também algumas gravuras notáveis de Bartholozzi de desenhos de Vieira.

Biografia retirada daqui






domingo, 7 de agosto de 2016

Biografia de Francisco de Matos Vieira (Vieira Lusitano)

n.      4 de outubro de 1699.
f.       13 de agosto de 1783.

Cavaleiro professo na Ordem de Santiago da Espada, pintor histórico da Casa Real, académico de mérito da Academia de S. Lucas em Roma, etc. Era mais conhecido pelo [nome de] Vieira Lusitano, por ser natural de Lisboa, onde nasceu a 4 de outubro de 1699, e faleceu no sitio do Beato António a 13 de agosto de 1783.

Era destinado pela sua família à carreira eclesiástica, mas desde criança revelou tal vocação para o desenho, tanto parecia que as belas artes o atraíam, e que nelas poderia alcançar de futuro um grande nome, que essa resolução foi posta de parte. Uns fidalgos da quinta da Boavista, situada próximo do convento da Luz, quiseram conhecê-lo, e o pai lá foi apresentá-lo. Nessa quinta é que Francisco de Matos Vieira se encontrou com uma menina, que foi a sua primeira e única paixão, e por causa da qual muito havia de sofrer toda a vida. Esse amor que foi desabrochando por entre os brinquedos infantis, havia de atormentá-lo, depois, até ao fim da vida. Vieira ia fazendo progressos no desenho, e o marquês de Abrantes, que viu alguns desses trabalhos, e estava nomeado embaixador em Roma, propôs-lhe levá-lo consigo e protege-lo, para que ele pudesse aperfeiçoar-se na arte, para que mostrava tão evidente vocação. A família de Vieira aceitou a proposta, e a criança foi estudando regularmente com um professor, cujo nome se ignora, até que a 16 de Janeiro de 1712 saiu de Lisboa na companhia do diplomata português com destino à capital italiana. O navio que o conduzia sofreu um violento temporal defronte de Cartagena, mas felizmente chegou a porto de salvamento.

Em Roma foi discípulo de Lutti, e seguindo as indicações deste professor, estudou os quadros dos Caraches da galeria dos Farnésios, frequentou as academias nocturnas, e procurou com grande ardor aproveitar utilmente e tempo, mas o marquês de Abrantes lembrou-se de o distrair desses trabalhos encarregando-o de lhe fazer desenhos de todos os festejos e funções religiosas que se efectuavam em Roma, de todos os ornamentos e peças que serviam de adorno aos altares da basílica de S. Pedro, do museu do cardeal de Alpedrinha, e satisfeitas todas estas vontades, ainda o marquês de Abrantes o mandou copiar os panos de Arrás, os candelabros, os móveis e tudo quanto guarnecia a sala principal do palácio da embaixada, bem como tirar um desenho da sua carruagem. Nesta altura estava o diplomata português quase em vésperas de regressar a Portugal, e queria trazer consigo e seu protegido, ao qual comunicou a sua intenção. Vieira recebeu grande desgosto ao saber de tal ideia, porque na verdade, pouco aproveitara com a sua estada em Roma, e pediu-lhe para se demorar mais algum tempo, por ser o seu ardente desejo aperfeiçoar-se na pintura. O marquês de Abrantes não gostou do pedido, e parece mesmo que tratou desabridamente o seu protegido; afinal, reconhecendo que o pedido era razoável, deixou-o ficar em Roma, e Vieira ali se demorou mais dois anos, entregando-se então com todo o ardor ao estudo, e tendo Trevisani por mestre. Tomando parte num concurso da Academia de S. Lucas, ganhou o prémio com um trabalho em que representou a conhecida cena de Noé embriagado diante de seus filhos, sendo ele o primeiro português que em Roma alcançou tão sabida honra.

Regressando à pátria depois de 7 anos de ausência, foi logo encarregado por D. João V de fazer um grande quadro do Santíssimo Sacramento para servir na procissão do Corpo de Deus, e depois de lhe pintar o retrato para servir de modelo aos cunhos da moeda. Posteriormente pintou também na sacristia da igreja patriarcal alguns quadros, representando Os Apóstolos, um Ecce Homo, Cristo crucificado, O Senhor preso à coluna, Cristo caminhando para o Calvário; e igualmente fez os esboços de três quadros do Salvador, S. João Evangelista e S. Lucas, os quais não chegou a concluir. Entretanto Vieira Lusitano e a menina de quem já se falou, D. Inês Helena de Lima e Melo, estavam cada vez mais apaixonados um pelo outro, e como a família de D. Inês se opunha ao casamento por julgarem o noivo de condição inferior, os dois namorados procuraram obter do patriarcado as licenças necessárias para o consorcio se realizar por procuração e apesar daquela resistência. O casamento realizou se, mas os pais da noiva, logo que souberam das diligências em que andava Vieira, levaram a filha para o convento de Santana, e a obrigaram a professar, embora ela protestasse era casada. Francisco de Matos Vieira tentou por todos os modos legais tirar a esposa da clausura, mas como nem o próprio soberano o atendeu, decidiu voltar a Roma afim de pedir ao papa os breves precisos para a realização do seu desejo.

Esteve mais de cinco anos em Roma, trabalhando activamente, por um lado para entrar na posse de sua mulher, e por outro estudando constantemente para mais se aperfeiçoar na pintura, e se é certo que os seus esforços se malogravam quanto ao seu casamento não é menos certo, no que respeita ás artes. tiveram eles o melhor êxito, porque, consolidando de dia para dia a sua reputação, foi feito académico de mérito na Academia de S. Lucas. Já antes da sua segunda viagem, em 22 de outubro de 1719, havia entrado na confraria de S. Lucas, onde estava designado com o nome de Francisco Vieira de Matos. No ano seguinte foi feito membro do conselho administrativo deste instituto. Dos trabalhos que então executou, especializa-se o quadro que pintou para a Academia representando Moisés na presença do rei do Egipto. Voltando à pátria desanimado por não ter conseguido do pontífice aquilo que tanto ambicionava, entendeu-se com sua mulher e com ela deliberou levar a efeito o projecto, saltando embora por cima de todas as leis civis e eclesiásticas. Arranjou meio de lhe chegar ás mãos um fato completo de homem, e um dia, ao anoitecer, D. Inês saiu da sua cela, passou em frente da abadessa, que não a reconheceu com aquele disfarce, e saiu do mosteiro para se encontrar com seu marido, e assim no fim de tantos anos de trabalhos e de amarguras puderam unir-se os dois estremecidos esposos. Não tardou que a fuga de Inês fosse conhecida no convento, e os parentes, ao saberem do facto, logo juraram que Vieira Lusitano não ficaria impune.

Um irmão da ex-reclusa constituiu-se em vingador da honra da família supostamente ultrajada, e esperando o pintor próximo, da rua das Pretas, desfechou sobre ele um tiro de pistola, que o feriu gravemente. Algum tempo depois, Vieira Lusitano achando-se restabelecido, foi pedir a D. João V justiça contra o seu traiçoeiro agressor, mas o monarca não o atendeu, porque influencias poderosas evitaram que a justiça procedesse; o criminoso saiu do reino livremente, e passados anos, caindo em miséria, viu-se na dura necessidade de ir mendigar o pão àquele mesmo que tentara assassinar. No entretanto, Matos Vieira, temendo algum novo insulto, retirou-se por algum tempo para o convento dos Paulistas, onde em 1730 e 1731 pintou uns famosos eremitas para o cruzeiro da igreja, e depois resolveu, para viver sossegado, uma nova viagem a Roma, mas chegando a Sevilha em 1733, foi dali chamado a Lisboa, e voltando a esta cidade, foi nomeado pintor do rei com o ordenado mensal de 60$000 reis e as obras pagas. Esteve em Mafra, onde enviuvou em 1775, e cheio de desgosto pela perda da sua estremecida companheira, abandonou a pintura, e foi viver para o Beato António, passando ali os últimos anos da sua existência.

Muitos dos trabalhos de Vieira Lusitano se perderam na terrível catástrofe do terramoto de 1755, sendo mais notável de todos eles o tecto da igreja dos Mártires, pintado em 1750, e em que se via representada a tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques. Das suas outras obras, que escaparam ao terramoto, citaremos dois painéis na igreja de S. Roque: Santo António pregando aos peixes e Santo António prostrado diante de Nossa Senhora, os quais eram muito louvados por Pedro Alexandrino; Santo Agostinho, na portaria do convento da Graça. em 1736; uns quadros de Santo António, S. Pedro, S. Paulo, a Família Sagrada, e Santa Bárbara, pertencentes à casa de Povolide e executados de 1736 a 1740; outra Sagrada Família, pertencente ao conde de Assumar; um grande painel representando S. Francisco, do convento do Menino de Deus; um quadro da capela-mor da Cartuxa; os quadros de S. Francisco de Paula, na capela-mor da sua igreja, e nas capelas laterais, os de Nossa Senhora da Conceição, da Sagrada Família e Santo António, todos executados em 1765. A capela dos sete altares da igreja de Mafra tem um grande quadro da Sacra Família; na capela de S. Joaquim ao Calvário. Há outro quadro da Família Sagrada, colocado por cima do altar, que passa por ser um dos seus mais belos trabalhos; uma Senhora da Conceição, que estava na Junta do Comércio. O conde de Lippe visitou Vieira em 1762, e obteve dele um Santo António que, levou para Alemanha; Guilherme Hudson também adquiriu um belo quadro da Adoração dos Reis magos, que levou para Inglaterra. Fez um número prodigioso de óptimos desenhos, dos quais a maior parte deles possui a Inglaterra, onde os amadores das belas artes os pagaram por bom preço, e muitos deles foram reproduzidos em gravura. Vieira Lusitano também gravou a agua forte, evidenciando se entre os seus trabalhos desse género: Neptuno e Coronis, e as Parcas cortando o fio vital de seu irmão. A sua vida tão amargurada por causa dos seus primeiros e últimos amores, contou-a ele num longo poema impresso em 1780, intitulado: O insigne pintor e leal esposo, historia verdadeira que ele escreve em cantos líricos.

Entre os discípulos do notável pintor conta se sua irmã Catarina Vieira, de quem eram, em parte alguns quadros da ermida de S. Joaquim e que pintou um S. Lucas e um S. João Evangelista, que pertenciam a um particular chamado Moreira Dias, que morava na rua da Fé. Também foi seu discípulo o morgado de Setúbal. Consta que na Biblioteca de Évora existe uma grande colecção de desenhos de Vieira Lusitano.

Informação retirada daqui



domingo, 31 de julho de 2016

Biografia de Charles Turner

Nasceu em Old Woodstock,Oxfordshire, Inglaterra,  em 31 de Augusto de 1774;
morreu em Londres em 1 de Agosto de 1857.

Filho de um cobrador de impostos arruinado, cresceu em Blenheim, no Palácio do Duque de Marlborough, onde a sua mãe residia, encarregue dos serviços de porcelana.

Turner foi para Londres em 1795 para se empregar nas oficinas do gravador e livreiro, e futuro Mayor de Londres, John Boydell, tendo estudado na Royal Academy. Trabalhou em gravura pontilhada à maneira de Bartolozzi e água-tinta, mas foi em mezzo-tinto, que trabalhou mais, tornando-se nessa técnica um artista reconhecido. 

Produziu mais de seiscentas gravuras, dois terços das quais foram retratos. As vinte e quatro gravuras que realizou para o «Liber Studiorum» de J. M. W. Turner e outras realizadas para este pintor, de quem se tornou amigo, foram realizadas todas em mezzo-tinto.

Em 1812 foi nomeado gravador do Rei, e em 1828 tornou-se sócio da Academia Real, onde exibiu regularmente os seus trabalhos de 1810 a 1857.


Fontes:
The Dictionary of National Biography,
founded in 1882 by George Smith
Oxford, Oxford University Press, 1998

Enciclopédia Britânica

domingo, 24 de julho de 2016

Biografia de Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato

Um dos representantes do liberalismo conservador.
Nasceu em Lisboa,  em 17 de Setembro de 1777;
morreu em 11 de Dezembro de 1838.

Estudou no Colégio dos Nobres, e depois de ter concluído os estudos secundários, cursou Cânones na Universidade de Coimbra.

Doutorou-se em 1799, com 22 anos, obtendo a classificação de muito bom, tornando-se lente de Instituições Canónicas. Em 1806 foi nomeado Comissário das Escolas e Estudos da Corte e Província da Estremadura.

Em 1810 foi nomeado pela Regência para membro da Comissão encarregada do exame dos Forais. Nada foi decidido sobre a reforma dos forais, e a Comissão passou a preocupar-se com a reforma e uniformização dos Pesos e Medidas.

Em 1812 foi eleito vice-secretário da Academia das Ciências, e em 1814 tornou-se sócio efectivo. Em 1820 foi eleito deputado às Cortes Constituintes, de que foi presidente várias vezes. 

Com a Vila-Francada retirou-se de Lisboa, sendo chamado de novo a Lisboa, por Palmela, para participar na elaboração da Carta Constitucional prometida por D. João VI. Com a subida ao poder de D. Miguel retirou-se da vida política, regressando à política mais uma vez, quando em Julho de 1833, Lisboa foi tomada pelas tropas liberais do duque da Terceira. Morato sempre fez parte do grupo político do duque Palmela.

Em 1834, com a vitória do regime liberal, foi nomeado Par do reino e vice-presidente da câmara respectiva. Em 1836, após a Revolução de Setembro tentou uma conciliação dos cartistas com Manuel da Silva Passos, chefe dos setembristas, que não teve sucesso.

Fontes:Francisco Manuel Trigoso de Aragão Morato, Memórias ..., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933,Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

domingo, 17 de julho de 2016

Biografia de Leão Trotsky

Criador da teoria da Revolução Permanente.
 
Nasceu em Yanovka, Ucrânia  em 7 de Novembro de 1879;
morreu na Cidade do México em 21 de Agosto de 1940.

Nascido Lev Davidovich Bronstein, filho de um próspero lavrador judeu, Trotsky envolveu-se desde cedo em actividades políticas clandestinas. Detido em 1898, preso e enviado para a Sibéria, juntou-se ao Partido Social Democrata Russo.

Acabou por escapar da Sibéria, em 1902, e passou a maior parte dos quinze anos seguintes no estrangeiro, durante um tempo em Londres, mas sobretudo em Viena. Quando, em 1903, se deu a divisão entre os sociais-democratas russos, Trotsky tornou-se membro da facção "menchevique" enquanto Lenine assumiu a direcção dos "bolcheviques", tendo apresentado a sua teoria da "revolução permanente". Em 1905, com o início da Revolução, foi para São Petersburgo tornando-se presidente do 1.º Soviete (Conselho) de Delegados operários em Outubro. Em Dezembro, após a publicação de um ataque às despesas da Casa Imperial russa, foi novamente preso. Enviado de novo para a Sibéria fugiu, acabando por se estabelecer em Viena, em 1907, onde criou o jornal Pravda.

Com o início da revolução russa de Fevereiro de 1917 em Petrogrado regressou à Rússia, estando naquela altura a viver em Nova Iorque. Apesar dos desentendimentos com Lenine durante o seu longo exílio, Trotsky juntou-se aos bolcheviques e desempenhou um papel decisivo na tomada do poder pelos comunistas em "Outubro" daquele ano. 

O seu primeiro cargo no novo governo foi o de comissário dos Negócios Estrangeiros, tendo negociado o Tratado de Paz de Brest-Litovski com a Alemanha. A seguir, foi nomeado comissário da Guerra e, nessa qualidade, criou e organizou o Exército Vermelho, que venceu as forças russas brancas na Guerra Civil. Trotsky teve por isso um papel fundamental no estabelecimento do regime bolchevique na Rússia. 

Via-se como herdeiro natural de Lenine, mas a sua arrogância, provocada sobretudo pela sua ampla cultura, fez com que não tivesse muitos amigos  políticos, e a sua ascendência judaica virou-se naturalmente contra ele, numa época e num país profundamente anti-semitas.

Quando Lenine morreu, Trotsky, que tinha pouca vontade de lutar pelo poder  político, foi facilmente ultrapassado por Estaline. Em 1927 foi expulso do partido. Exilado na Ásia Central, em Alma Ata, no actual Cazaquistão, acabou por ser expulso da Rússia soviética, sendo enviado de Odessa para Constantinopla por barco. Não deixou, por isso, de continuar a escrever e a criticar Estaline, que continuou a considerar um perfeito imbecil.

Após deambular de país para país, Trotsky acabou por se estabelecer no México, em 1936. 

Em 20 de Agosto de 1940, um assassino contratado, Ramon Mercader, agindo sob ordens directas de Estaline, esfaqueou Trotsky com um picador de gelo, ferindo-o gravemente, acabando por morrer no dia seguinte.

Fonte:
Francis Wyndham e David King, Trotsky, A documentary, Harmondsworth, Penguin Books / Allen Lane The Peguin Press, 1972.

domingo, 10 de julho de 2016

Biografia de Jean Travot

n: 7 de Janeiro de 1767, em Poligny (França)
m: 7 de Janeiro de 1836, em Chaillot [Paris] (França)

Soldado em 1784 no regimento de Infantaria de Enghien, licenciado em 1786, realista-se no ano seguinte sendo cabo em 1788, sendo novamente licenciado em 1789; eleito major de um batalhão de Voluntários em 1791, é tenente coronel em 1793. Combate na fronteira do Reno, no começo da Guerra, sendo transferido para o exército que combate os monárquicos franceses no Oeste da França. Promovido a general de Brigada em Março de 1796, captura alguns dias depois o célebre Charette, chefe dos insurrectos. Em 1805 é general de Divisão, sendo nomeado comandante do campo móvel de de Napoléon-Vendée em Fevereiro de 1807.
Comanda a 3ª Divisão do 1º Corpo de Observação da Gironda que invade Portugal em Novembro de 1807. Regressado a França com o exército francês, serve sobretudo no interior, sendo Barão do Império em 1813. Em 1814, participa sob as ordens de Soult na batalha de Toulouse. Durante os Cem Dias é encarregue de manter a ordem na Vendeia, derrotando os monárquicos em vários reencontros. Preso em 1816 é condenado à morte por um tribunal de guerra, mas a sua pena é comutada em 20 anos de detenção. Enloquece pouco tempo depois, morrendo numa casa de saúde de Chaillot.

Fonte:
Jean Tulard e outros,
Histoire et Dictionnaire du Consulat et de l'Empire, 
Paris, Laffont, 1995. 

sábado, 9 de julho de 2016

Biografia de João Gonçalves Zarco

Fidalgo cavaleiro da casa do infante D. Henrique, pertencente a uma família distinta. 

Seguiu desde muito novo a carreira marítima, e por mais de uma vez exerceu o comando das caravelas, que guardavam as costas do Algarve. Quando o infante D. Henrique se lançou no caminho das explorações marítimas, João Gonçalves Zarco foi o primeiro que se lhe ofereceu para o coadjuvar nesses empreendimentos. Aproveitando o oferecimento, o infante D. Henrique, em 1418, mandou preparar um barco, e entregando-o a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira, mandou-os ou demandar terras desconhecidas, ou procurar umas ilhas que já apareciam nos mapas, e a que teriam aportado cinquenta ou sessenta anos antes outros navegadores portugueses. João Gonçalves Zarco chegou depois dalguns dias de viagem, à ilha que chamou de Porto Santo, voltando logo a Portugal a dar conta do resultado da sua expedição. O infante ficou satisfeitíssimo, e tratou logo de colonizar a ilha. Ordenou pois a João Gonçalves Zarco e a Trintão Vaz Teixeira que voltassem a Porto Santo, dando-lhes por companheiro outro criado da sua casa, chamado Bartolomeu Perestrelo. Foi nessa segunda viagem que descobriram ou demandaram a ilha da Madeira, saindo Tristão Vaz e Gonçalves Zarco do Porto Santo no dia 1 de julho de 1419, e indo aportar à Madeira no ponto a que chamaram de S. Lourenço, por ser de S. Lourenço, também o nome do navio que os conduzia. Fizeram depois em torno da ilha uma viagem de circum-navegação, e foram pondo nomes aos diferentes acidentes da costa. Nessa viagem recebeu a principal baía da ilha o nome de Baía do Funchal, e uma grande lapa onde se escondiam muitos lobos que os viajantes caçaram, o nome de Câmara de Lobos, tomando desse sitio o próprio João Gonçalves Zarco e os seus descendentes o apelido de Câmara. 

Voltando a Portugal, receberam os dois navegadores do infante o devido prémio. Confirmou a João Gonçalves Zarco o apelido de Câmara, e deu-lhe por armas escudo em campo verde, e nele uma torre de menagem com cruz de ouro, e dois lobos-marinhos encostados à torre com paquife e folhagens vermelhas e verdes. e por timbre outro lobo-marinho sentado em cima do paquife. Além disso, dividindo a ilha em duas capitanias, fez mercê duma delas, a do Funchal, a João Gonçalves Zarco. Partiu este para a sua ilha, depois de ter casado com uma senhora por nome Constança Rodrigues de Almeida, e todo se entregou à colonização da sua maravilhosa propriedade. Não se esqueceu contudo dos seus deveres de cavaleiro, nem sobretudo da multa gratidão que devia ao infante D. Henrique, e, quando este quis tentar a expedição de Tanger, veio pôr-se à sua disposição. No cerco de Tanger foi armado cavaleiro pelo infante, e tendo escapado com vida a essa desastrosa expedição, tornou para a Madeira, onde, aproveitando as ricas maltas que existiam ali, fez construir alguns navios com que de vez em quando auxiliou o infante nas suas expedições de descobrimento para além do cabo Bojador. Diz-se que foi ele, mas não se sabe com que fundamento, o primeiro que pôs a artilharia a bordo. Esses instrumentos guerreiros eram então bem imperfeitos e de bem pouco serviam, mas, assim como eram, se alguém se lembrou de a pôr a bordo, foram de certo portugueses que precisavam bem de todos os meios de defesa que o génio humano lhes pudesse sugerir para se defenderem nas aventurosas expedições que tentavam contra desconhecidos perigos. Os navios de Gonçalo Zarco figuraram, como se disse, nos descobrimentos para além do cabo Bojador, e um sobrinho de Gonçalves Zarco, Álvaro Fernandes, foi um dos nossos descobridores mais felizes e audaciosos. João Gonçalves Zarco morreu na segunda metade do século XV, cheio de anos e de felicidades, deixando filhos que foram tronco de algumas das mais nobres famílias portuguesas. O ramo principal da sua casa é hoje representado pelos descendentes dos condes e marqueses da Ribeira Grande.

Informação retirada daqui


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Biografia de Abraão Ben Samuel Zacuto

n.      c. 1450.
f.       1510.

Sábio judeu, grande astrónomo. 
Nasceu em Salamanca em 1450, aproximadamente, e faleceu em 1510. 

Foi catedrático de astronomia na universidade da sua terra natal, e mais tarde na de Saragoça e em Cartagena. Quando os judeus foram expulsos do Espanha veio para Portugal, onde teve grande valimento junto de D. João II e principalmente de D. Manuel, de quem foi cronista e astrónomo. Atribui-se à sua influência para com o rei D. Manuel, a carta de alforria que este monarca no princípio do seu reinado, concedeu aos judeus. Auxiliou com os seus conselhos a expedição de Vasco da Gama, e inventou alguns instrumentos náuticos. Quando se deu a expulsão dos judeus em Portugal, procurou segurança em Tunis, mas viu-se mais tarde obrigado a fugir para a Turquia, onde morreu. 

Escreveu o Bi'ur Luhot que foi traduzido pelo seu discípulo José Vizinho com o nome do Almanach perpetuum. A sua obra mais importante, intitulada: Sepher Juchasin (Livro das linhagens), foi pela primeira vez impressa em Constantinopla, no ano de 1566, e nela se encontram curiosas notícias a respeito da história religiosa da nação dos israelitas e a respeito dos rabinos que viveram até 1500 e dos violentos ataques contra o cristianismo.

Informação retirada daqui


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Biografia de Cândido José Xavier Dias da Silva

n.      11 de março de 1769.
f.       26 de julho de 1833.

General e estadista que se tornou célebre, principalmente no tempo da luta constitucional. 
Nasceu em 11 de março de 1769, onde também faleceu a 26 de Julho de 1833. 
Seu pai, ou que era havido como tal, como diz Inocêncio Francisco da Silva, no Vol. II do Dicionário Bibliográfico, chamava-se Alberto Dias, exerceu por muitos anos a profissão de alveitar, tendo o seu estabelecimento no pátio do Duque, junto ao Rossio. Não se conhecem as particularidades da vida Cândido José Xavier nos seus primeiros anos, e apenas consta ter sido professor de retórica em Santarém, mas tendo adquirido bastante instrução e granjeado a estima de vários fidalgos, foi empregado na secretaria de um dos nossos generais e passando depois às fileiras, era sargento-mor do estado-maior, quando em principios de 1808 Junot dissolveu o exercito português e formou com parte dele a legião que dirigiu para França. 

Cândido José Xavier entrou nessa Legião de Tropas Ligeiras, como chefe de batalhão no 1.° regimento de infantaria e assim se conservou, até que sendo ferido em Wagram, em Moscova e ficando a noite no campo entre mortos até ser transportado no dia imediato para o hospital de Vienne, foi em seguida feito major do 4.º regimento. Em princípios de agosto recebeu ordem, assim como outros oficiais portugueses, para se apresentarem no quartel-general de Massena e acompanhou depois as tropas francesas, que entraram no nosso país ás ordens daquele general, pelo que foi condenando à morte pela regência do reino em 1810. Vendo assim fechadas as portas da pátria, conservou-se em França até 1820. Estando em Paris em 1818 foi um dos fundadores e mais assíduos colaboradores dos Anais das ciências, letras e artes, que ali se publicaram. Inseriu alguns trabalhos importantes, assinados com as iniciais do seu nome C. X. que muito contribuíram para dar ao seu autor reputação de homem de letras - e de partidário decidido das ideias e principies liberais 

A revolução de 1820 anulando as sentenças que tinham sido dadas contra ele e contra os outros portugueses que estavam em idênticas circunstancias, permitiu-lhe regressar a Portugal, e vindo em companhia de Pamplona, mais tarde conde de Subserra, logo que este entrou no ministério, como ministro da Guerra, Cândido José Xavier foi reintegrado no posto de sargento-mor, que tinha quando saiu de Portugal, e nomeado chefe da 1.ª direcção do ministério da guerra. Em 15 de outubro de 1821 foi, pela exoneração de Pamplona, encarregado interinamente do expediente e despacho dos negócios pertencentes àquele ministério, passou em 31 de dezembro seguinte a ministro efetivo daquela repartição, e deixando de exercer o cargo em 12 de novembro de 1822, tendo igualmente servido de ministro da Marinha de 18 de junho a 29 de agosto, e de ministro dos Estrangeiros de 10 de maio a 12 de junho do mesmo ano de 1822. Em dezembro seguinte foi nomeado sub-director do Colégio Militar, e levantando-se nas cortes de 1823 vozes desfavoráveis a esse estabelecimento foi incumbido de o reformar, e passando a ser dele director por morte do marechal de campo Teixeira  Rebelo, nessa situação permaneceu até que continuando a  doença de Saldanha e enfermando também o marquês de Valença que o estava substituindo como ministro da Guerra, foi Cândido José Xavier chamado a tomar conta interinamente dessa pasta em 2 de janeiro de 1827. Deixando o poder no princípio de maio, por estar restabelecido o general Saldanha, voltou depois em setembro a reassumir a pasta da guerra, que conservou até à chegada do infante D. Miguel, e organizou o ministério de 26 de fevereiro de 1828. 

Retirando-se logo depois para Inglaterra, aí viveu obscuramente, até que rebentado em maio a revolução no Porto, e organizando-se a expedição do Belfast, foi Cândido José Xavier um dos portugueses que acompanharam o duque de Palmela ao Porto, sendo por isso segunda vez condenado à morte. Retirando-se novamente para Inglaterra em consequência do triste resultado daquela revolução, foi nomeado chefe do depósito de emigrados em Plymouth e, com razão ou sem ela, o acusaram de ter sido odiosamente injusto no modo porque repartia os subsídios, concedendo aos seus amigos e protegidos grossas quantias, ao passo que aos outros dava uma insignificância. Esta desigualdade deu origem a muitas sátiras em verso e em prosa, entre as quais se notam principalmente as conhecidas Noites do Barracão, e a tal ponto chegou a guerra que foi preciso remover Cândido Xavier desse cargo, substituindo-o pelo general Tomás Guilherme Subbs. Passando depois a Paris, relacionou-se ali intimamente com D. Pedro IV, que lhe tomou grande afeição e o escolheu para seu secretário particular. Acompanhando sempre desde então o duque de Bragança, teve grande influência no ânimo do príncipe, e sendo nomeado ministro do Reino em 12 de janeiro de 1833, foi encarregado interinamente também da pasta dos estrangeiros em 26 de julho, e exerceu essas funções até falecer. Cândido José Xavier foi também do conselho do rei D. João VI e sócio da Academia Real das Ciências. 

Inocêncio Francisco da Silva, no Dicionário, já citado, diz o seguinte a seu respeito: «Os actos do seu ministério e vida publica foram muito diversamente avaliados pelas diferentes parcialidades políticas, entre as quais contava igualmente bom número de amigos dedicados e de adversários implacáveis. O que ninguém poderia negar-lhe era instrução não vulgar e muita actividade nas coisas a seu cargo.»

Do ensino mutuo, chamado de Lancaster; Nos Anais, já, citados, tomo II, parte I, pág. 1 a 40; Sobre as «Cartas portuguesas de D. Jerónimo Osório» publicadas em Paris por Veríssimo Alvares da Silva; no tomo IV, parte I, pág. 139 a 160; Sobre a tradução em português dos livros de «Re rustica» de Colmella, por Fernão de Oliveira; no tomo IV, parte II, pág. 3 a 13; Acerca do «Ensaio histórico sobre a origem e progressos das Matemáticas em Portugal por F. de B. Garção Stockler», no tomo V, parte I, pág. 138 a 156; Dos progressos do ensino mutuo em 1818 nos países das diferentes partes do mundo, e das novas escolas do ensino mutuo em Portugal; no tomo VI, parte I. pág. 53 a 79; e no tomo X. parte I, pág. 89 a 105; Ácerca do «Leal Conselheiros de El Rei D. Duarte, e do «Livro da Ensinança de bem cavalgar»; no tomo VIII, parte I, pág. 3 a 35, e tomo IX, pág. 92 a 127; Sobre as «Geórgicas Portuguesas» de Luiz da Silva Mousinho e Albuquerque; no tomo IX parte I, pág. 3 a 25; Reflexões acerca da obra que tem por titulo «Coup d'oeil sur Lisbonne et Madrido, escripta por Mr. d'Montefort, e publicada em Paris no mês de maio do corrente ano; no tomo X, parte I, pág. 3 a 32; Considerações sobre a Estatística; no tomo X, parte I, pág. 134 a 172: Cândido José Xavier deu-se também na sua mocidade ao cultivo da poesia. No opúsculo Sessão académica no faustissimo nascimento da Sereníssima sr.ª Infanta D. Maria Isabel,. etc:, celebrada no Real Colégio da vila de Santarém, publicado em Lisboa, 1799, saíram alguns versos seus. Era então, professor de humanidades no referido colégio.

Informação retirada daqui

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